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Vilarinho da Furna não existe mais – Orlando Ribeiro

Vilarinho da Furna não existe mais; não declinou por abandono dos habitantes, mas porque uma barragem a meteu debaixo da água que submergiu leiras e casas e até o cemitério situado na parte mais alta da aldeia. Nem os mortos escaparam e dos vivos ninguém cuidou; pagas as indemnizações irrisórias, cada um se amanhou como pôde, enriquecendo-se o país de electricidade, atirando para as incertezas da vida os seus vizinhos. E, no entanto, estas aldeias comunitárias viviam numa nobre pobreza, onde os habitantes se sentiam efectivamente senhores do que cul­tivavam e colhiam e geriam em comum os seus interesses colectivos. Esta reedição [Vilarinho da Furna – Uma Aldeia Comunitária, de Jorge Dias] é uma espécie de Requiem pelos pobres camponeses, pastores, moleiros e homens de outros ofícios humildes, que não inspiram aos prestigiosos cons­trutores de barragens outro sentimento que não seja de profundo desprezo. Infelizmente este crime perpetrou-se, outras aldeias ficaram debaixo de água e a famosa barragem do Alqueva, que é um erro técnico crasso porque se fecha um curso de água, gastando-se rios de dinheiro num paredão que, uns anos por outros, não chegará a encher a albufeira.Um problema que ocupou muito o espírito de Jorge Dias foi o das relações entre a cultura popular e a cultura superior. O povo, mesmo pobre e analfabeto, é um repo­sitório de autêntica sageza, na riqueza da tradição que não exclui inovação e adaptação e, na força criadora da poesia, da música, dos contos, das adivinhas, dos ensalmos, do fabrico de artefactos, completamente desconhecida da gente das cidades mas que constitui o cerne da Nação. O grande mérito de Jorge Dias foi ter-se debruçado amo­rosamente sobre este. património ameaçado e transmitido numa obra que, testemunhando uma fase crítica da civilização, prevalecerá sobre os desencontros dos tempos que correm. Uma obra viva como todas as manifestações superiores do Espírito.

Vale de Lobos, 27 de Abril de 1981

ORLANDO RIBEIRO

(Da Nota Preliminar à 2.ª Ed. do mencionado livro de Jorge Dias, em 1981)

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Manuel Antunes

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